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9.10.09

Ói nóis aí tra veiz - Comer & Beber 2009/2010

Pois então aqui estamos outra vez para mais uma eleição dos melhores da cidade nos quesitos restaurantes, bares e comidinhas da Veja Rio. E como já está virando tradição, a Thedim mais uma vez pediu minha opinião no quesito comidinhas, talvez porque eu não tenha engordado nada desde a última edição. Ela deve achar que eu como pouco.

E eu acho que se a coisa continuar assim brevemente vou ser reprovado, vejam só: no primeiro ano concordei com quatro dos eleitos, no segundo apenas com dois e nesse terceiro ano quando deveria melhorar minha nota, mantive o alto padrão de contrariedade e continuei elegendo só dois dos vencedores.
Mas vamos deixar de lenga-lenga e comentar cada um dos eleitos da categoria comidinhas porque afinal é para isso que estamos aqui (clique na tabela abaixo para ampliar):



Mais um ano onde a eleição do melhor café não dá para aceitar. Depois do Nespresso ano passado, o Armazém nesse ano. Alguém já tomou um café decente, não precisa nem ser bom, no Armazém ultimamente?

A Escola do Pão também não dá. Por melhor que seja o café da manhã, ninguém aguenta a dona circulando pela mesa e enfiando pedaço de pão com queijo derretido na boca dos clientes (ela enfiou na minha dizendo: Isso se come assim, ó!) Os pães são ótimos, mas fiquei com medo de voltar lá.

Quem pode dizer "isso aqui se come assim, ó" é o dono do Le Blé Noir (sem enfiar crepe goela abaixo dos clientes). Trata-se da única creperia do Rio. Acho que criaram essa categoria só para dar o prêmio. Um amigo exagera dizendo que é o melhor restaurante do Rio.

Focaccia foi uma boa surpresa. Parabéns aos colegas que votaram na casa e parabéns à casa pela proposta e pelo prêmio. Mas ainda fico com o BB.

Arroz, feijão, soja e sorvete premium. Todos são commodities; compra-se a quilo pelo melhor preço (no caso desses sorvetes, alto preço). Nao há diferenciação. Para mim o melhor é o mais perto.

Achei que essa categoria Temaki não ia sobreviver para esse ano como algumas temakerias não sobreviveram. Modinha que para mim já perdeu a graça. Vou liderar um movimento pela volta da categoria de Empadinhas!

É isso. Parabéns para a turma da Veja Rio porque essa edição deve dar um trabalhão, e obrigado Fernanda por poder participar mais um ano dessa eleição tão bacana. Mas ano que vem, Empadinhas outra vez!!

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11.8.09

Conteúdo patrocinado também se come

Já discutimos aqui a velocidade com que as coisas todas estão acontecendo hoje em dia. Tudo, simplesmente tudo é mais rápido hoje do que era ontem. E, confirmando esse fato, o que para mim era apenas uma longínqua possibilidade se materializou num piscar de olhos nessa última semana. Vejam só.

Alguns de vocês devem saber que ao mesmo tempo em que escrevo diletantemente sobre gastronomia e afins aqui no bistrozinho, sou um profissional de marketing e tecnologia muito menos diletante. Trabalho numa área onde vejo acontecer a maioria das invenções e invencionices no mundo dos serviços e produtos para telefonia celular no Brasil. Nessa área um dos hits do momento são os conteúdos patrocinados onde empresas e anunciantes oferecem informação e entretenimento de graça (ou quase) desde que o cliente aceite ver ou receber alguma propaganda em troca. Tipo TV aberta

Eu já estava sentindo o cheiro de que um dia esses mundos tão distantes iriam se encontrar, mas ainda não vislumbrava onde nem quando isso poderia acontecer. Estava míope, claro, pois este encontro entre conteúdo patrocinado e gastronomia que só marqueteiros vorazes conseguem viabilizar tinha um único lugar para acontecer, eu é que não vi o óbvio.

Está no ar mundialmente a campanha “Go”da Visa que entre centenas de ações e mídias – todo mundo já viu pelo menos os anúncios na TV – pretende usar um suporte até então inédito pelo menos para mim com grandes anunciantes como este. Suporte este que apesar de muito querido, é um dos mais violados das nossas mesas. E não estou falando de toalhas ou guardanapos. Estou falando de pizza. :(

Não sei de qual sabor será nem quem vai fazer ou quanto vai custar, se vai custar alguma coisa, mas a pizza sabor Visa Go entra no rol das coisas mais esdrúxulas que já vi. Chega a dar tristeza ao olhar a foto. Mais triste ainda se isso vira moda. Já imaginou você pedir num restaurante aquela picanha suculenta e ela chegar com a marca de um banco grelhada? Ou será que estou exagerando e dessa forma até comida vai ser grátis como provoca o Chris Anderson no seu último livro?

Enquanto os filósofos do marketing discutem isso, tenho questões mais práticas para resolver. Em São Paulo, onde a propaganda é super controlada, vão permitir um pizza assim? E para quem pagar com Mastercard a pizza vai sair mais cara?



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13.7.09

Ñ, uma letra que faltava ao Rio

Antes de falar de comida, um pouco de ortografia latina: o som que em português é produzido pelo dígrafo "nh", em espanhol usa uma letra só. Mas, diferente do "ç", que seria o nosso equivalente, o ñ deles (pronuncia-se enhe) é realmente uma letra que consta do alfabeto logo depois do n, não é apenas uma acentuação. Mas agora os cariocas aqui têm também o seu Eñe, no caso um restaurante (coisa muito mais útil do que uma letra, convenhamos).
Um pouco atrasado em relação à São Paulo onde o Eñe já fez dois anos, o Rio ganhou na semana passada um restaurante da nova cozinha espanhola. Antes que vocês reclamem do termo "nova cozinha espanhola" que nem eu aguento mais, esclareço: trata-se da nova nova cozinha espanhola que passa longe de sifões, espumas, canudos e sacolés. É comida mesmo, com prato e garfo, e espanhola mesmo.

Fica num lugar que eu nem sabia que existia, dentro do Hotel Intercontinental mas com acesso pela praia de São Conrado, o que imediatamente tira do Eñe carioca a pecha de restaurante de hotel e dá uma cara de balneário que pouquíssimos restaurantes da cidade têm. A entrada é por um deck de madeira no meio dos jardins do hotel onde já há mesas sob um toldo para comer vendo e ouvindo o mar. Mas se você é do tipo que prefere um ambiente mais, por assim dizer, civilizado, com ar condicionado, ou se quer sentar vendo o que acontece dentro da cozinha, a casa tem um dos mais elegantes e despretensiosos salões que conheço na cidade. Piso de madeira rústico, instalações aparentes, iluminação suave e uma grande vidraça que dá para a cozinha onde a turma trabalha sob o comando sereno do chef Sergio Torres que chama um parêntese (quem acompanha o Bistrô há algum tempo talvez ainda se lembre que ele foi entrevistado aqui ao lado do seu irmão gêmeo e sócio quando abriram o Eñe em SP num dos poucos posts em que a gente aqui não chegou atrasado).

A competência dos irmãos Torres, que descobri serem catalães de Barcelona e do bairro de Gracia, onde nasceu meu pai e onde morei, já era conhecida, mas a simpatia do Sergio, não. Atendeu a todos que o procuravam na cozinha e sempre com uma taça de cava na mão mostrava o que estava fazendo e até dava provinhas dos pratos que iria servir.

Logo ao chegar, também com uma cava na mão, provamos uma linguiçinha temperada com páprica, batatas bravas ao estilio da casa (na foto, sensacionais), croquetes de presunto cru e um mini tomate confit recheado de ostra que foi só o primeiro sabor inédito da noite. Se tivéssemos ficado naquele deck só com isso e a lua cheia, já estava bom. Mas entramos e sentamos.

Éramos umas sessenta pessoas que quase enchiam o salão. Trocamos a cava por um branco espanhol para acompanhar primeiro um ravoli de castanha portuguesa com foie-gras que se não impressionou foi porque era realmente um sabor inesperado. Mas eu comeria mais uns três ou quatro. Depois o aroma da cozinha trouxe uma vieira na chapa coberta com uma emulsão de salsinha num sabor muito espanhol. Subindo um pouquinho o tom, provamos um filé de peixe que no menu diz que é corvina mas eu duvido, numa cama de sal com um purê de barôa e um refogadinho de tomates, azeitonas e outros temperos bem picadinhos delicioso. Desse eu comeria mais uns cinco se me servissem. Mas serviram, agora já com um tempranillo no copo, uma vitela lentamente braseada acompanhada de um sensacional mil-folhas de batata que para alguns foi o melhor prato da noite. Encerramos com uma mousse de crema catalana que tem tudo o que a original tem só que com uma leveza que permite perceber muito mais as sutilezas do seu sabor.

Apesar de um monte de novidades, todos os pratos eram na sua essência, posso dizer sem exagerar, tipicamente espanhóis. Sem abuso da técnica, ingredientes facilmente identificáveis, misturas de sabores que sempre existiram, estava tudo lá. Já comi muita coisa em matéria de comida espanhola, desde a caseira do interior até a sofisticada de Barcelona e garanto que o Eñe é um restaurante espanhol até a raiz dos cabelos. Exatamente como a letra ñ. Bem vindos ao Rio.


-----

Eñe
Av. Prefeito Mendes de Moraes, 222 São Conrado (em frente ao posto 13)
www.enerestaurante.com.br


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3.7.09

Atoa! com A Banda

Recomendo a leitura desse post com o acompanhamento do Chico Buarque cantando A Banda porque a associação com a letra foi irresistível.



Estava à toa na vida
A fome então apertou
E quando olhei ao redor
O Atoa! se apresentou

Gostei de cara da casa
Clara e cheia de cor
Gostei também do menu
Com quase tudo a favor

Pedi a tortilha que foi onde meu dedo parou
Até que enfim um chef esperto no prato apostou
Pra garçonete que atendia na mesa pedi
Para vir também uma gasosa

O que chegou na nossa mesa nem eu nunca vi
Tortilha nem de longe aquela cozinha já viu
E a mesa inteira logo se assanhou
Pra ver o Paco provar
O que o Atoa! aprontou

Não consegui nem comer
O prato a moça levou
Com tanto sal na tortilha
Minha pressão disparou

Então, cliente sofrido
Vi a conta chegar
Senhor, então não precisa
Pelo prato pagar

O restaurante não esqueceu do ocorrido e acertou
E por um prato que não soube fazer, não cobrou
Fiquei com aquela fome de matar
Pensando que ao Atoa! eu não devo voltar

Mas como sou cabeça dura voltei a insistir
Entrei, sentei pensando no que eu ia pedir
Contra filé com bernaise e um malbec
Assim pelo menos o copo garantir

Mas para meu desencanto
O molho não agradou
Contra filé duro e seco
O vinho ainda salvou

Então, cliente sofrido
Vi a conta chegar
De novo então só precisa
Pelo vinho pagar
Agora sim ao Atoa!
Eu nunca mais vou voltar
Agora sim ao Atoa!
Eu nunca mais vou voltar


ATOA! Café
Avenida das Américas, 500, Bloco 21,Lj 123, Shopping Downtown
Telefones 21 3433.8828


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26.6.09

O Bistrô Carioca unplugged

Três anos e 150 posts depois de nascer, o bistrozinho aqui mantém seus ideais intactos e faz mais ou menos o mesmo caminho que prega nas suas páginas on-line.
Exatamente como está acontecendo na gastronomia, retoma valores tradicionais e nada tecnológicos e bota no papel o que antes era só virtual.

É isso mesmo. Fiz um apanhado dos melhores, mais divertidos, gastronômicos e sinceros posts e coloquei em uma versão desconectada, com peso, cheiro e textura, que traz um resumo do que se poderia chamar de linha editorial do Bistrô, onde a observação dos costumes, o humor e o caráter meio ranzinza que marcam sua personalidade podem ser conferidos sem a necessidade de se ligar nada na tomada.

Com um belissimo projeto gráfico do Gabinete de Artes e quase cem páginas, O Bistrô de Papel é um antigo projeto que só agora ganhou corpo e condições para aparecer.

Numa época onde três anos podem ser considerados uma eternidade e o que a gente escreve numa tela de computador pode desaparecer com um clique, colocar tudo no papel impresso não é só um prazer como é a garantia de que todas as nossas idéias e até alguns ideais não vão ser apagados quando faltar luz. Além disso é um ato de amor por um suporte que no final das contas foi onde tudo começou.

Editar um livro no Brasil já foi mais difícil, mas distribuí-lo é ainda praticamente impossível. Por isso, se alguém tiver uma sugestão de como/onde posso fazer a distribuição, será muito bem vinda. Enquanto isso quem quiser um exemplar basta me escrever que vou fazer o possível para atender.


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14.6.09

Dois restaurantes com vinho nos nomes

O Luiz Horta sempre diz do alto de sua sabedoria que é a comida que deve harmonizar com o vinho, não o contrário. Pelo menos aqui no Rio tem dono de restaurante que concorda tanto com ele que acaba colocando vinho no nome da sua casa. É o caso do Intervinos em São Conrado e do Le Vin em Ipanema que têm muito mais em comum do que apenas vinho no nome. Mas têm grandes diferenças também.

Além do vinho nos seus nomes, os dois restaurantes têm cardápios muito parecidos. Ambos oferecem o que se pode chamar de cozinha de bistrô, com aqueles pratos típicos dos restaurantes tradicionais franceses. Nos dois você encontra moule et frites, cassoulet, steak tartar, entrecôte com bernaise, confit e magret de canard além de outros pratos, onde cada casa busca se diferenciar, dentro dessa linha de simplicidade e qualidade que o bistrôzinho aqui preza tanto.

No Intervinos, o nome infeliz – para mim parece nome de importadora, não de bistrô francês – esconde um restaurante que foi a melhor surpresa dos último tempos. Apesar da localização ingrata, funciona onde por muito anos foi o Take, um dos japoneses pioneiros da cidade, a visita ao “outro lado” de São Conrado foi prá lá de compensadora. Sob um edifício residencial e ao lado de uma verdadeira autopista, de fora a casa até parece modesta, mas a pequena fachada se abre num ambiente sóbrio, com pé direito duplo e nenhuma referência a um bistrô como o do cardápio que descobrimos depois. Logo na porta há uma boa exposição de vinhos para o cliente escolher e levar para a mesa. Curiosamente todos têm uma etiqueta com seu preço, bons preços, para você não precisar ficar perguntando quanto custam. Então, para deleite dos que pensam como o Luiz, nós escolhemos um Torres Gran Coronas Cabernet Sauvignon para acompanhar os pratos que ainda nem conhecíamos.

No Le Vin o ambiente é bastante diferente. Instalado numa casa no coração de Ipanema, a filial carioca do original paulistano chama a atenção pela simplicidade, quase descuido, com a ambientação externa. Mesinhas de bar ocupam a calçada sob um toldo que cobre também a varanda onde nos sentamos. Na entrada pelo que seria a garagem da casa, há uma vitrine com ostras frescas o que já dá uma dica do perfil do Le Vin. Ao fundo uma grande e bem iluminada adega faz jus ao nome que está no letreiro. Lá dentro o ambiente é mais arrumado mas ainda com um ar caseiro que não acrescenta nada, inclusive a toalha quadriculada usada em todas as mesas remete muito mais a uma cantina do que a um bistrô.

Então, além de totalmente diferentes, os ambientes das duas casas pouco ou nada têm a ver com suas propostas culinárias, muito curioso.

Depois de abrirmos o Torres, chegou na nossa mesa do Intervinos um couvert delicioso com croquetes de cordeiro, queijo de cabra no azeite, caponata, patê e ótimos pães. Ficamos sem reclamar nesse couvert com Torres por quase uma hora esperando uns amigos atrasados. E se eles tivessem se atrasado mais, eu até agradeceria. Mas na hora de escolher os pratos, aconteceu aquela dificuldade típica de bons menus que já abordei aqui. Dá vontade de provar todos, desde a salada mais simples ao tournedor com foie gras do dia. Mas quando tem cassoulet como opção, a concorrência fica prejudicada.

Em Ipanema também escolhemos o vinho antes, duas taças de um Luigi Bosca Pinot Noir muito aromático que chegou junto com um couvert bastante simples: bom pão fresco, patê e boa manteiga. A ressalva que faço quanto ao couvert é que éramos duas pessoas e nos cobraram dois couverts embora se fossemos uma ou quatro pessoas, como vi em outras mesas, o couvert seria o mesmo. Acho correto cobrar por mais quando repõem o que comemos, o que não aconteceu. Mas vamos em frente porque a comida estava boa. Como havia comido cassoulet alguns dias antes, optei por um entrecôte com bernaise e batatas fritas que estava delicioso, no ponto, macio, molho muito bom e bem apresentado. Confesso que não esperava por tanto. A madame pediu um ravióli de camarão com molho de tomates e gengibre muito bom também.

A mesa no Intervinos era maior e os pratos mais variados mas com a mesma boa surpresa. Da pissaladière e do penne com abobrinha das meninas à paleta de cordeiro com legumes grelhados do Gus, todos sorriram da primeira à última garfada. Inclusive eu com meu cassoulet servido perfeitamente numa caçarola de barro e o Paolo com seu tournedor com foie gras.

Nas duas casas há diversas opções de massa, carnes, peixes e até sanduíches para harmonizar com suas extensas cartas de vinhos. No Intervinos, heresia, há também uma carta de cervejas bacana para aqueles que não estiverem a fim de um bom vinho com um bom preço para acompanhar bons pratos num bom ambiente. Já o Le Vin tem seu próprio vinho, um Cabernet Sauvignon produzido na Argentina.

Nos dois restaurantes com vinho no nome as sobremesas mantiveram o nível dos pratos. Os crème brûlée estavam ótimos e os ovos nevados que a madame comeu no Le Vin também. Não provei nenhum vinho de sobremesa embora, claro, estivessem nas cartas. O serviço foi atento nas duas casas com alguma vantagem para a de São Conrado pela qualidade das mesas, toalhas e guardanapos. A conta foi parecida nas duas também, R$ 120,00 por pessoa.

Apesar de parecidas em muitos pontos, minha avaliação dá uma vantagem importante para o Intervinos pelo conjunto da obra que é bem mais redondo do que no Le Vin. O ambiente em São Conrado é muito melhor, de mais qualidade do que em Ipanema. A carta de vinhos mais rica em opções que a gente pode comprar num jantar despretensioso. Afinal, com vinho no nome, os dois restaurantes devem querer que seu clientes tomem vinho sempre. Os cardápios se equivalem mas, segundo a madame que é mais exigente do que eu, com vantagem para o Intervinos. Concordo com ela.

Em resumo, para quem se dispõe a atravessar um túnel para comer e beber bem com um preço justo e não faz questão de ver e ser visto, o Intervinos é hoje sem dúvida uma das melhores opções da cidade. Dá até para desculpar seu nome.


Intervinos
Estrada da Gávea, 698,
São Conrado
21 3322.6962
www.intervinos.com.br

Le Vin
Rua Barão da Torre, 490
Ipanema
21 3502.1002
www.levin.com.br

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4.6.09

Três meses depois, três Tempranillos

Se alguém acha que vou começar explicando porque faz tanto tempo que não posto nada aqui está muito enganado. Então vamos começar logo a recuperar o tempo perdido.

A segunda degustação cega do Bistrô, como vocês vão ver, exigiu muito mais dos degustadores do que a primeira. Ao contrário da degustação de cervejas, quando o importante eram as opiniões dos supostos experts, nessa aqui tinhamos que "descobrir" o que estávamos bebendo.
Tudo bem que descobrir é um pouco forte porque não foi exatamente uma degustação cega, era no máximo míope, o que não tira seu valor.
Juntei na mesa de casa três casais amigos e três Tempranillos espanhóis de regiões diferentes, inclusive os casais pois um deles era semi-paulistano. Arrumei os seis lugares e coloquei dezoito taças na mesa já seguro que de que talvez nem todas voltariam para o armário. Com mais os copos e jarras de água e as cestas de pão já dá para imaginar como ficou a mesa.

Comecei apresentando a uva da noite, uma típica espanhola que tem esse nome exatamente por poder ser colhida mais cedo, mais "temprano". Ela não é uma grande estrela no showbiz do vinho, mas casa muito bem com diversos tipos de comidas, o que para mim é um grande atributo. E por algum motivo que desconheço, começou a aparecer bastante em diversos supermercados por aqui.

Depois apresentei os três cavalheiros. Um Clos Torribas 2004 recém comprado, um Rioja Campillo Reserva 2002 e um Raimat Costers del Segre 2001 que tinha guardados em casa. Nada de decantador nem filtro. Botei eles na geladeira por quinze minutos e quando abri estavam todos a dezesseis civilizados graus.

No impresso que preparei para cada um na mesa, além de um pouco de história e da tabela para a degustação havia três descrições que não identificavam o vinho aos quais ser referiam. Por exemplo:

Vinho 3 – 100% Tempranillo. Cor vermelho cereja profundo. Sedutores aromas de pimenta preta, cedro, cereja e ameixa preta com especiarias no palato. Aveludado, potente e equilibrado acabado. Elegante na boca desenvolvendo tons de café e licor.

A brincadeira consistia em casar corretamente o vinho com alguma das descrições. Não é cega, é só míope, sacaram? Posso garantir agora que a degustação míope é tão boa quanto a cega.

Servi o primeiro vinho mas ninguém foi capaz de provando apenas um reconhecer a qual descrição se referia. E como nenhum de nós nem de longe entende alguma coisa do assunto, para chegar à conclusão de quem era quem foi preciso provar os três vinhos e encontrar em algum deles algum traço de uma das descrições apresentadas. Bebe-se muito mais assim. Discute-se muito mais também, com cada um verbalizando aromas e sabores e relendo cada descrição em busca de uma indicação qualquer que diferencie cada vinho na boca.

Quando abri o envelope que identificava cada vinho, quatro de nós tinham acertado todos, ficando os dois mais entendidos com apenas uma resposta certa.
Os que acertamos usamos a mesma estratégia: buscar uma característica única em cada vinho, que só existisse nele e que, claro, fosse de fácil identificação. Não adiantavam aromas de cedro e cereja, mas um aroma de pimenta preta que pica o nariz foi o que casou o Vinho 3 com o Raimat.

Mesmo sem a condução segura de um Célio Alzer como fizemos no Bazzar, conseguimos de forma caseira e totalmente empírica - e que consome uma quantidade de vinho muito maior - identificar características de cada garrafa e unanimemente escolher o Clos Torribas como o melhor vinho da noite mostrando que um pouquinho de Cabernet Sauvignon não faz mal a ninguém.

Forramos o estômago com tortilhas de batata e sobrassada e sorvete com calda de chocolate quente.

Como vocês estão vendo, posso passar três meses sem aparecer por aqui, mas de jeito nenhum deixo de comer e beber bem e de principalmente me divertir com isso.


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28.2.09

Três anos do Bistrô

Ando tão enrolado que nem vi o tempo passar.
No último dia dezoito o bistrozinho completou três anos numa preguiça danada. Reconheço que não apareço mais com tanta frequência nem aqui nem nas casas dos amigos. Mas isso vai mudar, talvez.
Sempre disse aqui que quem faz o Bistrô são os comentários das nossas poucas mas fiéis leitoras e leitores. Como sou do tipo que corta a carne e mostra a faca, para comemorar o aniversário dessa copa-cozinha aqui, faço uma homenagem aos amigos e amigas que nesses anos têm aparecido com suas mais do que pertinentes, engraçadas, enfáticas, infames, esclarecedoras, sérias, simpáticas e carinhosas colaborações. Selecionei aqui, sem critério nenhum, quarenta comentários - só assim consigo tantos num post - feitos ao longo desses anos.

Então esse post é para vocês que estão sempre por aqui comigo, pois sem isso não vale à pena.

Mas vale à pena ler até o final pois tem de tudo aqui, até aquela promessa de subir na mesa e dançar rumba.

Obrigado e parabéns para vocês!

O primeiro, em Escondidinho

PF disse...
Paco,
Concordo em 100%. O Escondidinho da Acadamia é inimitável. Há umas 3 semanas atrás fomos ao Salve Jorge, um bar muito famoso aqui na Vila Madalena, conhecido pelas cervejas bem geladas e pelos quitutes considerados maravilhosos.
Pois bem, só quem não conhece o caldinho de feijão e o escondidinho da Academia pode achar que os daqui de São Paulo são maravilhosos. Não dá nem para começar a comparar!
Abraço,
PF

Amor em Calçotada

Anônimo disse...
eu Amooooooooooooooooo CALÇOTADA! gostaria de saber se existe algum lugar no Brasil, especialmente em Sao Paulo que eu possa comer essa deliciosa iguaria!
bjs Heloisa
Falta de rumo em A Redonda

brisa disse...
Nem lembro como parei akih, mas estou de pleno acordo: pizza de brigadeiro?? ECA!! Jamais comih e nunca vou experimentar:))

Abs e parabens pelo otimo blog..Brisa

Dois em Com quantos pratos se faz um cardápio

Anônimo disse...
Fala Paco! Sinto discordar... prá mim 50 pratos no cardápio é mais do que demais. Considero o ideal, ter umas 6, 7 opções para cada possibilidade: entrada, massa, carne, peixe e sobremesa.Daí não tem erro.
Abraço, PF
Michel disse...
Concordo com o cidadão do post ao lado. Muita opção é sinal de descontrole fácil de qualidadee de uma cozinha.Gostei daqui, voltarei sempre.
Abraços

Polemicazinha em Jovens e Chefs

Antonio Carlos Sá Peixoto disse...
Muito boa critica. Sem desmerecer nenhum talento promissor ,mas realmente as técnicas estão sobrepondo os pratos, que deveriam continuar sendo as estrelas. Esta necessidade de buscar o novo esbarra na falta de fundamentos, buscam uma renovação sem base, ainda acredito na maneira tradicional de confecção dos pratos,podemos ser ousados mas muita novidade sem propósito atrapalha.

nina flores disse...
trabalho com um "jovem chef" que faria vc reavaliar um pouquinho suas palavras...

Sensações em Dois Livros

Fugu F. disse...
Adorei o blog! E sou fã da Ruth Reichel. Sim ela romanceia um bocado a gastronomia mas justamente por isso descreve sensações como ninguém. Afinal, o despertar de sensações provocado por um prato está sempre ligado a emoções, afetos, associações amorosas. Para mim, comida boa é a que surpreende meus sentidos. E isso é impossível se tocar apenas minha boca.

Pedro Mello e Souza disse...
Há três anos que o Bulli e o Fat Duck se revezam na liderança desse ranking aí. Como eu adoro números e estatísticas, parei para ver quem está sempre ou ocasionalmente. No primeiro desses rankings, encontrei um restaurante argentino, que nunca mais foi relacionado. Depois, surgiu um "juri" para a América Latina, que se não me engano, tem o Josimar como chairman. Claro que o Atalla merece, mas, politicamente, a Latin América tinha vaga cativa - selecionaram a última.

Saudades do Pisando em Repórter Esso

eduardo lima disse...
Caro Paco,Só há uma maneira de conhecer/reconhecer o melhor dos bistrôs: boca-a-boca. Parabéns pelo elogio da Luciana. Os meus são suspeitos.

Eis que ela surge em A tampa certa

Roberta Malta disse...
Achei boa essa teoria. Sabe que em São Paulo é cheio desses japoneses de esteira metidos a chiques. Parecem querer agilizar o serviço pra uma clientela que nunca está lá.Fora que a esteira é lenta igual aquelas de aeroporto, onde todo mundo põe a mão nas malas procurando a sua.Você tem toda razão!
Estatísticas fundamentais em Recomendação de dieta
Roberta Malta disse...
Hummm, delícia. Dessa dieta eu tô dentro, pode me convidar na próxima vez!Cê leu isso?Deu no “Journal of Labour Research”: quem bebe ganha mais do que quem não bebe. Foi a conclusão de um estudo americano. Homens que bebem bebida alcoólica ganham 10% mais que os abstêmios. No caso das mulheres, elas ganham 14% mais que suas colegas comportadas.Também deve ser levado em consideração na dieta...

Histórias cariocas em Dois restaurantes

Gabriel disse...

O Gula Gula é uma verdadeira instituição carioca. E é uma maravilha ver o crescimento de uma marca sem que ela perca sua identidade. Sou fã de carteirinha. Sobre o Marco Polo, acho que o restaurante acabou porque o Alessandro era sócio de um chef francês, ex-Le Saint Honoré, que acabou falecendo ainda muito jovem. Diante disso, não tinha como continuar com o restaurante. O ponto passou para a Devassa e por isso o Alessandro é um dos sócios da casa. Desculpem, falei demais.

Cultura gastronômica em Terroir na cozinha

Pedro Mello e Souza disse...

Paco, desvendei: o baru é uma fruta de polpa alimentícia, mas de preparo difícil. Serve mais ao gado. Na cozinha, o que vale mais é a semente, que é torrada e fornece uma castanha de sabor suave e que proporciona petiscos, paçocas e pés-de-moleque. Daí o seu uso no pesto do beiju de tapioca, substituindo os pinoli, e no crocante do sorvete de umbu, em que faz o papel de uma castanha. Estou com a foto do baru - ou cumaru, ou ainda, como prefere o Houaiss, cumarurana.

Medo de espionagem em A voz da razão
Ane Brasil disse...
Ai ai... e eu que só sei fazer arroz, feijão e macarrão?!Acho que não vou mais ler você... vai que nego véio descobre esse blog no histórico e passa a cobrar maior variedade na cozinha! Aí, tô frita!hehehehehe(bom, pelo menos eu tenho o cabelo igualzinho ao da Juliana Paes... hehehehe)Sorte e saúde pra todos!
A velha disputa em Boteco B0h&m1@

Kats disse...

Paco, tks pelo link! Agora, engraçado... enquanto aí a moda são os botecos paulistizados, por aqui (SP) pipocam barzinhos estilo "boteco carioca" e a Devassa é um sucesso. Vai entender... Ah, e tem um leitor mineiro reclamando no blog que a origem dos botecos é mineira. E agora, José?

Mistérios em Não é mole, não

Jotabe disse...
Tenho boas lembranças do La Mole,faz muito tempo que não apareço por lá.Esses restaurantes que atravessam os tempos com o mesmo cardápio quilométrico são mesmo um mistério.Difícil de entender. Abraços
Muita polêmica em Três baristas
Anônimo disse...
penso, logo como bem!!!ja nao consigo sair de casa sem o telefone do meu advogado, sem saber onde o meu cardiologista anda..agora vejo que a proposta é nao sair sem um barista?!?! peralá...qdo vamos a um restaurante nao pergunto antes de pedir, o curriculum do chef, se estudou computaçao antes, se escolheu o emprego certo, se o arroz tem 129 erros...eu o julgo pelo prato que me serve...com café é a mesmissima coisa!!! nao me importa se é barista ou nao...mas sim, o cafe que ele tira e só!nao me venha com este bla-bla-bla corporativista...eu adoro espresso mas tambem, nao dispenso um cafe de coador bem feito e recomendo o da rua da quitanda, onde tem um cafe palheta na porta da drogaria venancio!
bjs,moça com + d'50
Barista falando de cerveja em Menos uma

Barista disse...
Estou chocado!!! Como falar de café dá trabalho :o), seguimos falando das loiras e das não tão loiras assim.Estive recentemente na fabrica em Campos do Jordão e comprei algumas garrafas que ficam descansando na adega ate serem consumidas. Agora, me ocorreu, será que isto passará a ser uma constante no mercado? Grandes marcas comprando novamente marcas regionais? No passado foi assim.Soube que o pessoal da Itaipava que comprou a Lokal de Teresópolis é quem fabrica a cerveja “artesanal” Devassa. Portanto, deixou de ser artesanal e virou comercial mesmo!!!Hoje pelas bandas do Estado do Rio, temos algumas boas cervejas artesanais agora sendo engarrafadas. A saber: mistura clássica de volta redonda; imperial de Itaipava e Terezópolis de terê mesmo!!

Abraços, Barista

Errata internacional em Primeira chef três estrelas

nopisto disse...
Esto no es completamente verdadero.La primera mujer con 3 estrellas Michelin fué Eugénie Brazier quien hace más de 60 años veía honrado con la tercera estrella su restaurante -una casita de madera- en las montañas, Le Col de la Luère, después de habérselas ganado ya en Lyon con su archifamoso La Mère Brazier, abierto en 1921. La mère Brazier mantuvo hasta 1968 su tercera estrella.En Italia Nadia Santini de Dal Pescatore, en Lombardía hace tiempo que consiguió las tres estrellas Michelin y en España Carma Ruscalleda las tiene desde el año pasado. Por no hablar de Elena Arzak que ha heredado la que su padre tenía. Siento no poder falar en portugues pero creo que se entiende.

Astrologia em Um ano de Bistrô

loris disse...
genial, o Bîstrô é peixe como eu, jesus, etc acho que os piscianos não são modestos.brincadeira.parabéns.visual novo ou velho eu adoro o seu blog.continue nos maravilhando e fazendo valer a pena viver

beijos loris
Roberta Malta disse...
É dubio se se pensar que a comida da infância ficou marcada na infância dele, não de outros tb. Pode ser q ele marque poucas pessoas, mas e quantas a mãe dele marcou? 2, 3? Acho ele inteligente, pode ser que marque poucos. Mas marque. E comida de infância tem a ver com repetição tb! Sempre aquela mesma comida, mais fácil de ficar na memória.Ih, tô viajando...beijo.
AnaWinTour disse...
Oi Paco, estava falando de vc pra uma amiga lá do blog da Luciana, e vim aqui pegar o seu link pra passar pra ela, e não resisti. Que delícia de blog! Olhando essas fotos, a do Risoto então...fiquei com água na boca. :)) Vou experimentar o sanduiche e o risoto de catupiry, que devem ser ótimos. E vc tem razão: risoto não tem erro! "O bonito" é garantidíssimo :))
Bjs, Ana


Com erro em Dois risotos
Roberta Malta disse...
Sabe q outro dia me surpreendi com o quanto as pessoas ainda acham q risoto é arroz misturado com alguma coisa. Uma pessoa me falou q tentou fazer um de funghi seco e não deu certo. Eu perguntei como ela tinha feito, e ela: passei o funghi seco na manteiga e misturei com arroz integral!!!Não deu nem pra dizer alguma palavra amiga pro ser humano. Orangotangos certamente fariam melhor! beijo.
Minhas colegas de auditório em Nori
Paco Torras disse...
A Cris tem razão, a vista do cinema é espetacular. A Roberta também, o Bazzar é por enquanto o único "concorrente" do Nori. A vista de lá é bem diferente, mas é tão bonita quanto. Bem-vinda Monica! Apareça sempre! Ana, obrigado pela divulgação. Uma RP assim é tudo o que o Bistrô precisa :-) Só dá mulher no Bistrô, que beleza!

Quem disse que isso aqui é virtual em Vinhos de outono

AnaWinTour disse...
Aquela noite foi ótima mesmo, e os vinhos deliciosos.E enfim, conseguimos conversar melhor - só tinhamos nos visto no lançamento do livro da Luciana!A MónicaB é aquela amiga (ainda virtual)a quem indiquei o seu blog, lembra que comentei? Ela é um amor e também comenta na Luciana.Quem sabe ela vai na próxima degustação e podemos conheça-la pessoalmente?Falando nisso, será que a Cristiana vai encontrar esses vinhos "tão brasileiros"? Vai ser o máximo, né?Bjs em vc e na Cláudia! Ana Luiza

Impagável em As batatas do Dr. Jeckyll

Cris Beltrão disse...
Podemos dizer que ele "pirou na batatinha", definitivamente... Desculpe. Foi infame, mas irresistível!
Patrulhismo carioca em C, de luxo
Anônimo disse...
acho entao que se trata de um sitio para “entre amigos” e nao para leitores!!! nao confunda o leitor habitual com "leitores amigos ou amigos leitores"!!!imagino que a consoante “c”, para um dicionário denominado bistrô C-A-R-I-O-C-A deva ser conjugado em palavras como: churrasco...churros (sim churros!! Como bom carioca que freqüenta o centro de sua cidade, ha de encontrar!), cerveja ou sua variante...chope! casquinha de siri outra nobre iguaria. Pena que você tenha escolhido algo tão nobre porem tão Capitalista, digno de quem freqüenta CPIs ou deveria esta em uma delas.., Consumistas..Corporativista..merCantilista....tomara que em “D” não leiamos sobre Dólar, Delação premiada....Boa pesquisa!
Um convertido em A culpada é a rolha
glupt disse...
Paco, eu sou um convertido à tampa de rosca. Mas ressalto uma coisa, a resistência à mudança, no caso dos grandes vinhos de guarda, é por uma razão mais que o simples conservadorismo: não se sabe o que acontece com um vinho "enroscado" por uns 30 anos. E a rolha permite uma certa troca necessária com o exterior, coisa que a rosca não permite. Mas há controvérsias...Note que o grande vinho australiano, o Penfolds Grange, continua firme com suas rolhas enormes e íntegras. Isto dá pano para manga e acho ótimo que vc se meta na discussão. Abç, L
Vizinhança de primeira em Entrevistas do Bistrô: Roberta Sudbrack
Roberta disse...
Paco,
A honra é toda minha, você é um craque!
Adoro ser sua vizinha!!!
Vida longa ao Bistrô Carioca!
Grande beijo, Roberta Sudbrack
Paixões em F, de fondue
Julia "C" Roberts disse...
Acho que, assim como o Obelix, caí num caldeirão quando era pequena... só que o meu era cheio de queijo! Talvez isso explique a "abundância" de minhas proporções e minha absoluta fascinação por qualquer tipo, cor, textura e sabor de queijo. Obviamente fondue é uma paixão! Na Suíça é de matar. Há milhões de combinações possíveis pra mergulhar nosso pãozinho. Amei um que era uma mistura de Vacherin Fribourgeois e Gruyère.Por Tutatis! Não há coisa melhor!
Lombrigas e vizinhos em Defumando

Juliana disse...
oi paco! voce viu que tem a opcao com hickory tambem, ao inves de alder? c-l-a-r-o que eu sei disso porque minhas lombrigas ficaram atacadas depois que li o post e estou querendo defumar o que aparecer pela frente. ja achei o smoker bag aqui. antes do proximo movimento, so preciso ter certeza de que meus vizinhos sao tao compreensivos quanto os seus. :-)

Bailando em Circuito RioShow de Gastronomia 2007

Cris disse...
E se nos puser lá de novo, a gente abusa de fazer vergonha. Dependendo do tema, eu danço a Rumba.Sabe se a Roberta vem?
Lápide da rumbeira em Meu médico favorito

Cris Beltrão disse...
Os mandamentos de uma glutona em viagem...Pesquisar e estudar ingredientes tão profundamente quanto estuda a história do país que visita; ser intrépida e impávida com texturas, sabores e saliências obscuras; encarar um prato principal, uma entrada e uma sobremesa, sempre!, e sem pensar na balança; ter um marido que adore uma mulher rechonchuda; nunca deixar de provar especialidades locais, principalmente se recomendadas por pessoas simples e humildes; caso a morte lhe "acometa" durante a viagem, que seja por indigestão (!) e que em seu epitáfio, haja obrigatoriamente a inscrição: "aqui jaz Cristiana (ou fulana), a glutona, enterrada sem caixão, abraçada em cogumelos e trufas, por entre tubérculos e debaixo de uma horta".

Descriminação (sic) em J, de jaca
Anônimo disse...
Sou amante de jaca e sinto muitíssimo vê-la tão descriminada e rejeitada. Acabo de saborear um super-nutritivo suco de jaca com acerola. Conheço quem faça uma magnífica torta com essa mesma fruta tão desprezada neste blogger." É a ingnorânça que astravanca o pogreço". Isso é Brasil!

Elvira disse...

Acho esse tipo de comida totalmente idiota. E mais idiota ainda é quem paga tanto para a comer. Comida não é experiência de laboratório. Pffff... Snobismos! :-(

Beijos.

Alta voltagem em Roberta Sudbrack

Nunca treze à mesa. disse...
Como bem diz Nina Horta, cozinhar é uma forma de se ligar.Então, comer é uma forma de estar ligado.Desfrutar de uma refeição da Roberta é um choque de 220v. Não foi a toa o sucesso dela como chef no Planalto.
Assim eu coro em Dois anos do Bistrô

Roberta Malta disse...

Sinto falta, sim, da sua assiduidade nos posts, mas a saudade é maior e sempre acabo voltando. E amo quando tem novidade! Gosto do seu jeito de olhar as coisas e aprendo novos pontos de vista todas as vezes que leio, ou releio, um post do Bistrô. Pode ser melhor? Vida longa, Paco Torras!

Porcaria também se come em K, de ketchup

Claudia disse...
Catchup, bem, só no hamburguer e com mostarda. Sozinho não vale nada! Não tenho pote em casa apodrecendo na geladeira. As crianças gostam pois é doce, tem mais açúcar por grama do que bolo!Já vendem com 50% menos açúcar e ainda é muito doce!Uma bobagem essa ternurinha com o catchup. Um molho 'trash' que não vale nada sem mostarda e que é puro açúcar. Falando em chinês, o agridoce é bem melhor, mas de vez em quando também.A maionese sim é cheia de potencial, facil de fazer em casa e serve como base para um monte pratos.A mostarda, bem a mostarda é um luxo. O catchup lixo, tipo porcaria que a gente como porque porcaria também se come.Tchau.
Paco Torras disse...
Êta comentaristas bons tem esse Bistrô, hein? Constance, bemvinda, se prepara! Michel e Ernani, dizem que o Rubro está melhor que todos, já provaram? Roberta, sinceramente...


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18.1.09

Italiano e Japonês no JB

As poucas amigas que ainda acompanham o Bistrô conhecem bem uma das nossas máximas: quanto mais perto de casa, mais demoramos a visitar. Aconteceu de novo e provavelmente não será a última vez.
Ocorre que estou bem servido de bares e restaurantes por aqui. Aliás acho que só a Dias Ferreira pode ser comparada ao que se está se tornando os arredores da Lopes Quintas. Vejam bem: Quadrifoglio, Mil Frutas, Caroline e Italia: Bibi, Fazendola, Nankin e Belmonte, Roberta Sudbrack, Saturnino, Informal, Filé de Ouro, Escola do Pão e Lorenzo. Tudo isso a no máximo duas quadras da minha casa (os pontos vermelhos na imagem aí ao lado mostram esses lugares todos). Então, não é à toa que dois pequenos, mínimos, restaurantes sejam difíceis de se destacar e ainda mais aparecer aqui no Bistrô. Mas aqui estão eles.
Um é japonês e já ganhou uma filial no Leblon, o outro, italiano, ganhou boa crítica da Luciana Fróes na Rio Show. Para vocês sentirem como eu estou atrasado, deu tempo de construir um restaurante e da Lu atravessar o Jardim Botânico.
O japa é o Ymaki que se coloca no letreiro mesmo como fast-food japonês. Se eu tivesse um restaurante japonês, pensaria dez mil vezes em associá-lo a fast-food, mas nos tempos atuais, quando velocidade é medida de tudo, pode até ser um atributo positivo. Mas não foi esse atributo que nos levou lá a primeira vez. Foi a fome mesmo.
O Ymaki é um dos restaurantes mais bonitinhos que fui ultimamente. Modernino no ponto, varandinha, elegante, enfim, tudo certinho. Na varanda há duas mesinhas de bar para esperar ou para comer por lá mesmo se você entrar no clima fast. Ao lado da porta há um grande aquário com peixes coloridos que durante o dia traz luz para dentro e à noite ganha um belo destaque.
Lá dentro, em talvez cinquenta metros quadrados, há um pequeno balcão, uma boa mesa redonda, quatro mesinhas e um reservado para oito ou dez pessoas. Quer dizer, comem no máximo pouco mais de vinte.
Menor ainda é o Espresso Italia, uma quadra dalí. No balcão comem seis pessoas e nas mesas mais seis. Instalado há sete meses na entrada de uma galeria meio decadente, o restaurante da Ana Luiza e do Alessio tem pouco charme mas sobra em simpatia. Um quadro negro na calçada mostra os os dois ou três pratos e saladas do dia que são servidos além dos sanduíches e comidinhas permantente no cardápio. No dia que fui lá o proprio chef estava no salão recebendo os clientes - quase todos pareciam já conhecidos dele - e servindo as mesas. Ambiente caseiro e relaxado.
No Ymaki o serviço não é o forte, as meninas têm boa vontade mas pouca atenção. No cardápio dominam os onipresentes temakis em dezenas de versões mais ou menos criativas. Mas há também combindos, yakisobas e duplas como em qualquer japonês. Nas vezes em que visitei a casa sempre esteva correto, nada exuberante nem decepcionante. Na única vez que reclamei de um sashimi de atum, imediatamente me trouxeram outro sem pestanejar. Um defeito é só servirem caipirinha de saquê. Enfraquece.
Já no Espresso a comida surpreende pela qualidade e simplicidade. Nenhuma grande invenção, nenhum produto ou preparação mudernos, apenas bons pratos italianos como a gente tem guardados na memória. Na minha visita comi um espagueti ao alho e óleo com pimenta muito bom. A madame tomou um gazpacho acompanhado de torradinhas delicioso. Bebemos duas taças de um tinto italiano que desceu muito bem.
Um casal no Ymaki janta direito, com entradinha, combinado e sobremesa por pouco menos de R$ 100,00. Padrão japonês. Já no Espresso, com vinho, dois pratos, sobremesa e café gastamos R$ 50,00. Concordo que é uma comida menos elaborada, em menor quantidade e em teoria com a mesma qualidade. Mas é uma disparidade grande que mostra a força e o valor percebido nos restaurantes japoneses, mesmo quando se posicionam como fast-food.
O italiano e o japonês têm vários pontos em comum - pequenos, pertos de casa e sem grandes invenções - mas um diferença básica. Enquanto o primeiro vai pela estrada da tradição, o segundo segue pela da moda. Nada contra nenhum dos dois caminhos, o Jardim Botânico só ganha com isso. Mas minha torcida é que a próxima filial de um dos dois seja do Espresso, a cidade ganha mais com ela.
Ymaki
Rua Saturnino de Brito, 52 
Tel: 249.7237 
Espresso Italia
Rua Jardim Botânico, 728

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3.1.09

2009 de verdade

O Bistrô, com sua agilidade habitual, deixou para 2009 os votos de um ano novo cheio de realizações, felicidade, sucesso e prazeres, já que em algum momento a gente tem que parar e ter prazer naquelas coisas mais simples e corriqueiras que temos todos os dias e que foram tão difíceis de conquistar como as que estão por vir.
Então, desejo que 2009 seja um ano de descobertas e re-descobertas, que deixe uma marca boa nas nossas memórias, crie lembranças de momentos e sabores e traga para perto tudo o que a gente sente falta e que nem dez mil francos podem comprar. Mais ou menos como nos dois videos abaixo que, muito além dos pratos servidos, resumem bem esse desejo.


A festa continua aqui.

Para quem só pensa em comida, o menu foi:Potage a’la Tortue, Blinis Demidoff au Caviar, Caille en Sarcophage avec Sauce Perigourdine, La Salade, Les Fromages, Baba au Rhum avec les Figues. E beberam Amontillado, Veuve Cliquot 1860 e Clos de Vougeot. Mas de verdade, isso é o menos importante nesse jantar.

Feliz 2009!

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21.11.08

Alimentando idéias e estômagos

Livrarias para mim sempre foram um ótimo programa. Principalmente depois que descobriram que livraria não precisa, não deve, ser apenas uma loja de livros. Mais do que nunca, livrarias hoje são locais entretenimento tanto quanto o produto que vendem. A coisa ficou ainda melhor depois que colocaram Cafés dentro delas. Então, entre um livro e um pingado, você espera o mundo passar lá fora com toda a paciência e serenidade que a gente parece recuperar quando entra num lugar desses.
Aqui no Rio a Livraria da Travessa foi além instalando mais do que Cafés nas lojas. Primeiro numa parceria com o Bazzar e agora com o Copa Café, separou um espaço no meio das estantes para algo mais do que Cafés, algo mais gastronômico, mas sempre sem perder esse jeitão que deu tão certo aqui. Como não consigo ficar longe de livros e perambulava com fome pelo shopping...
No sábado fui na já tradicional Travessa do Shopping Leblon onde o Bazzar montou a versão Café do seu restaurante de Ipanema e oferece um cardápio de tapas, sanduíches, saladas e grelhados daqueles difíceis de escolher porque tudo parece bom. No mezanino onde está instalado a vista não tem janelas, mas é sensacional. O colorido dos livros, livros e mais livros em balcões e estantes com as pessoas circulando e folheando é das mais entretidas. E arrematada pela trilha sonora sempre muito bem escolhida faz comer lá um dos melhores programas do bairro.
Na terça fui à nova e enorme Travessa do Barrashopping comer no Copa Café que abriu sua primeira filial lá. Ao contrário do Bazzar, o Copa tem janelas que dão para o exterior e iluminam o salão que está muito bem montado com belos móveis e decoração. A vista da livraria é mais acanhada, mas o ambiente é ótimo.
Quem me conhece um pouco já sabe o que pedi para comer nos dois lugares: hambúrguer, claro. Então vamos a eles.
O Copa Café é especializado em hambúrgeres e é sempre bem votado nas eleições da Vejinha. Na casa da Barra encontrei um serviço bastante atencioso e simpático e o cardápio, além dos tradicionais hambúrgeres, traz saladas, alguns grelhados e outros sanduíches. Nota-se a intenção de oferecer algum refinamento em pratos teoricamente simples, mas sem nenhuma afetação. Aqui cabe um parênteses saudosista: um dos donos do Copa foi dono do Rock Dreams, bar que já servia ótimos hambúrgueres nos anos 70 e talvez um dos primeiros lugares onde fui sozinho à noite na vida. Não dá para esquecer de liberdade e hambúrgueres juntos num lugar só, não é?
Não lembro o que eu pedia no Rock Dreams, mas para não fugir à regra, aqui fui no basicão: cheeseburguer com bacon, cebolas e pepino acompanhado de batatas assadas com sal grosso e alecrim. O pão era ótimo e nessas horas é que você vê que ele faz toda a diferença, mas o hambúrguer estava bom, mas não emocionou. Para acompanhar, uma Stella no ponto naquelas tulipas geladas que quase não existem mais por aí.
No Bazzar meu pedido já é um clássico. Se eu fosse assíduo o garçom nem me perguntaria: hambúrger com batata rosti e molho gorgonzola. Como você já deve ter notado não é o que está na foto ao lado que descaradamente roubei da Roberta. Gracias, Beta. Apesar de não ser uma casa especializada nesse tipo de sanduíche – a Constance até diz que o melhor de lá é o croque monsieur – o sabor do hambúrguer do Bazzar é inigualável. Não sei como a turma da Cris tempera a carne, mas até minha mulher que não é fã, achou sensacional. E é mesmo. O serviço também é sempre atento e delicado e as caipirinhas são ótimas.
O resumo da história é que as duas casas se encaixaram muitíssimo bem dentro das livrarias. Ponto para a Travessa por buscar os parceiros certos. Cada uma do seu jeito, mas oferecendo cardápios bem parecidos no conceito, o Bazzar e o Copa são tanto ótimos coadjuvantes para quem vai atrás dos livros como também protagonistas perfeitos para aqueles que estão mais preocupados em alimentar o estômago do que as idéias. Ótimos programas.

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12.11.08

Swiss Army

Não corta, não lixa, não aparafusa, não saca rolhas, não limpa os dentes, nem tira farpas de madeira enfiadas no dedão, mas em certos momentos é a melhor ferramenta que você pode ter no bolso.  Compre seu canivete de chocolate recheado com praliné de amêndoas aqui.
Precisam urgentemente inventar um apetrecho de cozinha útil como esse.

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19.10.08

A esquina e o livo - Final

Esta é a última parte de uma história que começou vinte anos atrás. Uma food-novel de um autor alemão que viaja no tempo.
A história começa aqui.
A terceira parte terminou com a Claudia sentada no sofá da casa dela perguntando para mim:
- Co-mo assim? - Ela se inclinou para frente e franziu a testa - Como você conhece a dona de um livro que está na minha casa há não sei quanto tempo?

A esquina e o livro
Final
Imediatamente, lembrei-me de um filme no qual o Dennis Quaid no passado conversa por um rádio-amador com seu filho nos dias de hoje (não vou entrar no mérito do filme, mas a história é mais ou menos essa, ok?). Na trama, ele bota uma agenda dentro de um sofá (no passado) e o filho, que é policial, a recupera (trinta anos depois, no presente) e resolve um caso.
Naquele momento estava acontecendo mais ou menos a mesma coisa, só que na minha história não há rádios transcendentais nem casos de polícia. Só o sofá onde estávamos e o livro.
- Acorda, Chico! - esse era meu apelido na faculdade. - Como você sabe de quem é esse livro?!
Eu olhava para a primeira página e para o rosto da Cláudia esperando minha resposta.
- Conheci essa Rosa em Angra. - disse isso ainda meio em transe - Era muito simpática e adorava ler na varanda de casa. Esse livro é dela, e fui eu que te emprestei.
O exemplar que tenho na minha mão agora não é só o título que eu estava procurando, mas é exatamente o mesmo livro que li vinte anos atrás. Naquela época, um amigo da Rosa me emprestou, devorei em dois ou três dias e re-re-emprestei para Cláudia, que enfiou-o numa estante com um monte de outros livros, onde ficou até hoje sem nunca mais ter sido lido. Nem devolvido. Eu tinha sido a última pessoa a abrir esse livro.
Para nós, foi como um elo entre o passado e o presente que se fechou. Exatamente como no filme.
- Chico, eu pensei várias vezes em doar esse livro - Ela tinha os olhos cheios d’água - mas acabava sempre colocando ele de volta na estante sem saber exatamente por quê.
Larguei o livro sobre a mesa, afinal era só um livro velho, e abracei-a com um sentimento inédito de que alguma coisa tinha sido definitivamente resolvida, que nós dois juntos tínhamos dado um passo irreversível.
Destino ou coincidência, tanto faz. Mas quem pode negar que os anos todos que passei procurando em vão Nem Só de Caviar Vive o Homem não foram para que eu o encontrasse nas mãos da mulher que amo? Quem pode dizer que, mesmo sem ter o menor interesse nesse tipo de literatura, ela não guardou esse livro por que sabia que eu viria buscá-lo? Quem sabe não foi essa procura que me levou a estar naquela esquina exatamente na hora que ela também estava?
Até esse dia, se eu estivesse preenchendo um formulário que perguntasse se eu sou crente ou cético, marcaria a segunda opção com toda segurança. Mas depois dessa experiência de encontros e reencontros, de histórias de vidas se esbarrando em esquinas e livros ressurgindo intocados do passado, confesso que hesitaria alguns segundos antes de marcar. Continuo cético, mas que alguém está trabalhando muito para mudar minha ficha, não tenho a menor dúvida.

Fim

Se você quiser ler essa história desde o começo clique aqui.

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13.10.08

A esquina e o livro - Parte 3

Esta é a terceira parte da história de uma food novel que voltou do passado. Se você não leu os capitulos anteriores, clique aqui.
A segunda parte acabou assim:
"Talvez o leitor considere isso tudo um exagero, tratar a procura por um livro que não tem nada demais como uma caçada e valorizar seu achado como se fosse a conquista de uma medalha olímpica, ou uma descoberta arqueológica. Mas ao final dessa história espero que, se essa impressão existe, ela seja completamente eliminada, pois o que aconteceu depois que abri o livro justifica plenamente as expectativas que criei."
E continua assim:

A esquina e o livro
Parte 3
Vinte anos atrás quando me emprestaram, “Nem só de Caviar...”, já era um livro bem usado, com as orelhas rasgadas, a ortografia desatualizada, e que já tinha vendido mais de um milhão de exemplares, coisa que antes dos livros de auto-ajuda e de Paulo Coelho, era uma marca considerável. Lembro vagamente que o livro não era do amigo que me emprestou, era um re-empréstimo, se existe esta expressão, de alguém com quem eu não tinha tanta intimidade assim.
Naquela época Cláudia e eu éramos colegas de faculdade e vivíamos um na casa do outro fazendo trabalhos, estudando e vagabundeando como todo universitário que se preza.
Depois de formado me mudei para o exterior e fiquei com minhas coisas metade lá e metade aqui sendo que geralmente uma coisa que eu precisava aqui estava na metade de lá e vice-versa. Quando voltei para o Brasil, por um tempo tudo continuou meio espalhado entre amigos e parentes. Com Cláudia, já não tinha mais contato algum.
Nesses quase dez anos que passamos separados, nunca nos esbarramos, nunca a vi passar na rua, não sabia o que ela fazia da vida, tampouco tínhamos amigos em comum. Enfim, não tínhamos a menor idéia do que se passava com o outro até o dia em que esbarramos numa esquina. Agora que estamos juntos de novo, podemos ver que se as coisas não tivessem acontecido exatamente assim, não teria a menor graça.
Finalmente me recostei no sofá, abri o livro numa página qualquer para ver se lendo um trecho a trama surgiria automaticamente na minha cabeça. Não aconteceu. Não me lembrava de absolutamente nada. Alguma nesga de história emergiu quando li a primeira receita, mas era muito mais uma memória gastronômica que literária. Mas o melhor de tudo foi que o temido anticlímax não aconteceu. Já me deliciava com a narrativa bem humorada de Simmel (quem disse que alemão não tem bom humor?) e com as histórias do agente secreto Thomas Lieven quando Cláudia entrou em casa e me viu lendo com um sorriso no rosto. E ainda na porta, devolvendo o sorriso, disse:
- Eu já tinha visto gente esperar por um livro, mas um livro esperar por alguém, nunca.
Ela se aproximou, sentou ao meu lado e me abraçou. Nós já achávamos essa história impressionante o suficiente para ser escrita, mas nenhum dos dois sabia que o desfecho era o queainda  faltava para torná-la única.
- Nem sei bem o que esse livro está fazendo aqui. Tem um nome escrito nele, deve ser da dona, mas eu não tenho a menor idéia de quem seja ela.
Curioso, voltei até a primeira página e li as únicas palavras no livro, que não tinham sido escritas pelo autor:
- Rosa de Lourdes de A. Caldeira - Li silenciosamente. Reli em voz alta para que eu mesmo ouvisse: - Rita Caldeira.
- Pois é, não tenho a menor idéia de quem seja essa mulher. - Ela se recostou no sofá enquanto eu me levantava.
- Mas eu sei quem ela é. - Minha voz quase não saiu.
Dizer que eu estava lívido seria um exagero, mas a expressão no meu rosto deixou evidente o que estava acontecendo.
- Co-mo assim? - Ela se inclinou para frente e franziu a testa - Como você conhece a dona de um livro que está na minha casa há não sei quanto tempo?

Continua...
A história começa aqui.

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7.10.08

Eleições 2008 - Calma que não é nada disso!

Pelo segundo ano consecutivo, a Fernanda Thedim comete o que deve ter sido um deslize e de novo me convoca para ser jurado da edição especial Comer & Beber da Veja Rio, agora na versão 2008-2009. Pelo menos ela teve o discernimento de me manter quieto na seção Comidinhas para eu não destoar dos gourmets de verdade na eleição dos melhores restaurantes. Esperta, ela.
Mesmo correndo o risco de brigar com a Fernanda, esse ano não me omito e vou comentar os resultados, mas só das melhores Comidinhas. Não meto a colher em panela alheia.
Começo com uma comparação entre os eleitos e votados do ano passado com esse ano:


A primeira observação é a empada dando lugar ao temaki. Acho saudável a renovação e a atenção aos movimentos do mercado - os marqueteiros chamam de tendência - só não sei se trocaria uma categoria tão carioca e tradicional por outra que pode ser só um modismo. O tempo dirá.
A segunda observação é que alguns dos eleitos no ano passado não tiveram votos em 2008, é caso do café da manhã da Escola do Pão, que esse ano ganhou em Pão sem ter tido nenhum voto nessa categoria em 2007, e da Pavelka que ano passado levou o melhor salgado mas nesse ano nenhum voto sequer. Cervantes, Colher de Pau e Armazem do Café, campeões em 2007 nas suas categorias, só tiveram um voto cada um em 2008. Isso parece bom, mostra que os jurados - quase todos os mesmos do ano passado - deram uma circulada por aí. Foi o que eu fiz, mas nada tanto assim.
Repeti o Due, o BB, o Bazzar e o Kurt porque para mim são imbatíveis mesmo. Na primeira categoria não entendi como puderam eleger o Café Aquim como melhor espresso, pois lá servem o café em cápsulas da Nespresso da Nestlé tirado numa máquina feita só para elas. Um café que qualquer um, com dinheiro, claro, pode ter em casa. Se tivesse sido eleita a loja Nespresso, como aconteceu em SP, tudo bem. Mas com esse critério poderiam ter elegido várias residências da zona sul. Café não é só pó, não é só máquina, não é só barista. Aliás, não sei o que a classe dos baristas achou dessa eleição, mas eu não teria gostado nada.
Também não concordo com o Talho como melhor sanduíche. Lá você monta seu próprio sanduíche com os ótimos pães e recheios oferecidos. Mais um caso onde qualquer residência carioca poderia ter sido eleita. O BB é diferente, faz excelentes os sanduíches de sempre e tem um cheeseburguer que poderia tranquilamente ter sido eleito na categoria Hambúrguer.
O Bazzar só parece um voto estranho nessa categoria para quem nunca provou o hambúrguer que a turma da Cris faz. No Kurt não tem torta mais ou menos, são todas ótimas e no ponto de açúcar. Além disso tem sempre fresquinha minha torta favorita, a Saint Honoré, produto raro por aqui. O que mais precisa para ganhar meu voto?
Para mim, votar na Colher de Pau ou no Chez Anne é a mesma coisa. Antigas lojinhas que fazem doces bem feitos e sem grandes invenções há anos, o que é muito difícil. Até fui nesse Le Pain du Lapin e pedi um croissant - quem acompanha a gente aqui sabe que na primeira vez vamos sempre no básico - e não gostei. Uma padaria tipo francesa com um croissant fraco não é um bom começo. É mais ou menos o mesmo caso da Casa do Alemão e da Pavelka, o croquete de carne dos dois é tão bom quanto o de camarão do Braca. Aqui em casa a categoria Salgado daria empate triplo.
O café da manhã da Táta é realmente sensacional, tem meu voto também. Mas preferi votar no Lavoura porque lá é super relax, a cara do Jardim Botânico - e de cara para o parque - mesinhas na calçada, pães do Talho (tá explicado meu voto no pão de lá), bolo de fubá tão bom quanto o formigueiro da Táta e espumante para começar bem o domingo. Se ainda não foi, vá.
Saco nada de chocolates, mas não há vez que passe no Rio Design e não pague pedágio no quiosque da Cacau Noir. Nunca provei os da Envídia porque acho o nariz da loja muito empinado até para a Dias Ferreira. Mas quem sabe para o ano que vem?
Troquei meu voto de melhor sorvete para o Itália porque acho o preço do Mil Frutas um abuso. O sorevete é muito bom, mas R$ 7,00 por uma bola de sorvete de côco? A Sorveteria Itália tem sorvetes tão bons e variados quanto os do Mil, pela metade do preço. Era o caso de fazer uma degustação cega de sorvetes para comprovar. Pena que a loja da Itália que abriu aqui no JB feche cedo.
Para encerrar, as temakerias. Fui o único jurado que não pediu uma dupla Koni/Popfish, sem dúvida as temakerias mais cool da zona sul. A Pop não conheço, mas provei outras várias e a Maki Maki foi a que melhor me surpreendeu em sabor e criatividade sem afetação. Vale provar também a Pe'ahi. Vamos ver quantas dessas vão estar por aqui no ano que vem.
Mas acho que no final das contas ganharam todos. Só ser lembrado por meia dúzia de cariocas que andam por aí provando de café a temakis nessa bagunça que a nossa cidade se tornou, é uma enorme vitória. Só sinto falta de ver opções além do Rebouças - todos os vencedores estão em apenas três bairros e os votados em outros cinco. Talvez fosse o caso de regionalizar a eleição, com certeza seriam descobertas algumas pérolas.
O que importa é que agora começa a pesquisa para 2009. Ano passado, das doze categorias eu concordei com três vencedores, esse ano apenas dois. Um dia eu chego lá, vamos ver se a paciência da Thedim aguenta.

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4.10.08

A esquina e o livro - 2

Nessa segunda parte, Nem Só de Caviar aparece pelo telefone, mas a história só está na metade.
Se você não leu a primeira parte, clique aqui  e leia antes de continuar.

A esquina e o livro
Parte 2
Eu continuava sentado na beirada do sofá na casa da Cláudia com o livro ainda fechado, pensando todas essas coisas e lembrando que, no dia anterior mesmo, tinha visitado um sebo e procurado por ele. Durante pelo menos cinco anos fiz isso insistentemente. Não era uma busca insana, mas sempre que tinha uma oportunidade eu procurava o Nem só de Caviar. Algumas vezes encontrei a edição nova, que nem revisada foi depois de 1965 quando foi lançado pela primeira vez em português, ou então encontrava outros livros de Johannes Mario Simmel que eu não tinha a menor vontade de ler. Um exemplar de Nem Só De Caviar Vive o Homem velhinho só para curar minha expectativa, nunca.
No fundo eu até gostava dessa busca infrutífera, gostava de ter um motivo para entrar nos sebos e ficar catando o livro (comprei muitos outros assim), gostava de perguntar para as pessoas se haviam lido e se tinham para me emprestar. Enfim, era uma caçada saudável. Mesmo porque a qualquer momento eu poderia comprar uma edição nova e resolver de vez meu problema. Ainda bem que não fiz isso.
Pela Cláudia eu nunca procurei, nosso reencontro foi absolutamente casual, virando uma esquina demos de cara um com o outro e não nos separamos mais. Passamos dias e noites contando o que tínhamos feito nesses últimos dez anos, de como tínhamos mudado pouco fisicamente, e como nossas histórias pareciam terem sido escritas para que estivéssemos juntos ali, daquela maneira, naquele momento.
E foi numa dessas conversas pelo telefone que, falando dos livros que tínhamos ou não lido, ela inocentemente escreveu essa história.

- Tenho outro livro aqui, acho que vc também vai gostar - estávamos falando de um livro que eu tinha acabado de ler na casa dela e gostado muito. - Tem o mesmo jeitão desse que você leu agora.
- Qual é esse outro livro? - perguntei sem nunca imaginar a resposta que ela me daria meio segundo depois.
- “Nem Só De Caviar Vive o Homem”, conhece? - Ela não ouviu meu queixo caindo.
- Você está me dizendo que tem esse livro aí? - Definitivamente não estava preparado para encerrar minha busca dessa maneira, pelo telefone.
- Tenho, estou olhando para ele.

Cláudia só percebeu o impacto das suas palavras depois que soltei vários palavrões de felicidade e contei a ela - que, claro, não estava entendendo minha reação - a história da caçada que acabava de terminar. Confesso que só no dia seguinte com o livro nas mãos, consegui garantir que ela tinha mesmo acabado. Cheguei a pensar que tudo tivesse sido só um delírio meu.
Talvez a leitora considere isso tudo um exagero, tratar a procura por um livro que não tem nada demais como uma caçada e valorizar seu achado como se fosse a conquista de uma medalha olímpica, ou uma descoberta arqueológica. Mas ao final dessa história espero que, se essa impressão existe, ela seja completamente eliminada, pois o que aconteceu depois que abri o livro justifica plenamente as expectativas que criei.

Continua...

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29.9.08

Os Malfeitores

O Bistrozinho aqui não é conhecido exatamente por defender uma alimentação natural, equilibrada e sem excessos. Até diria que se tivesse que escolher algum lado, escolheria o oposto. Mas, ao mesmo tempo, a gente não é idiota e da mesma maneira que detesta ser enganado por empulhações gastronômicas, adora quando alguém usa seus dois neurônios para esculhambar com o que merece ser esculhambado. Principalmente quando isso acontece com um ícone da comida moderna.

Karen Hanrahan é uma professora de nutrição que ensina os pais a fazer seus filhos comerem melhor. Nessas aulas ela leva como exemplo - mau exemplo, claro - um hambúrger do Mc Donald`s para mostrar que ali não há nada nutritivo, que é pura química, que não acrescenta nada à saúde de ninguém e aquele blá-blá-blá que todos nós conhecemos. Até aí, vocês dirão, nada de novo. O ponto interessante é que o hambúrguer que ela leva para suas aulas foi comprado em 1996 e é um desses dois aí da foto. O outro é fresquinho. Alguém sabe dizer qual deles tem 12 anos?
Pois é, contra fatos não há argumentos.

Embora pareça presunçoso querer juntar num mesmo post, boa alimentação e Anthony Bourdain (quem acompanha a carreira dele sabe do que estou falando) reproduzo aqui um parágrafo do seu último livro, Maus Bocados, de onde tirei o título desse post:

Da próxima vez que se encontrar parado, de queixo caído e faminto diante de um balcão de fast-food - e se houver um palhaço por perto -, simplesmente gire os calcanhares e se dirija para o operador independente, o lobo solitário mais adiante na mesma rua: uma casa de tortas, de fritas, de kebab, ou, em Nova York, um "carrinho de cachorro quente" em qualquer lugar que o proprietário tenha um nome. Mesmo essa amada instituição britânica, a chippie, é preferível ao negócio do palhaço; pelo menos você está estimulando o negócio local, individual, um empresário sensível às necessidades de vizinhança, em vez de um sistema ditatorial em que algum grupo de discussão num parque industrial em Iowa decide por você o que você vai ou deveria querer comer. Bacalhau frito ou linguado com vinagre, haggis com molho de curry; eles podem não ser o ápice da alimentação saudável, mas ao menos são nativos de algum lugar - e, se engolidos com bastante cerveja ou Irn-Bru, são bastante saborosos. A casa de kebab faz comida que é, ao menos, fresca, e um shawarma de carne bovina não requer adição de aroma de carne para ter gosto de comida.
Sempre que possível, tente comer comidas que vêm de algum lugar, de alguém. e pare de comer demais.

Anthony Bourdain não é exatamente o exemplo de alimentação saudável, ele até faz questão de se apresentar assim e nem acredito que ele faça tudo o que diz, mas que ele escreve e come bem, isso ele faz.

PS: O hamburger mais velho que do que o meu sobrinho é o da esquerda. Parece até mais apetitoso que o da direita, não?


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