A esquina e o livro - 2
Nessa segunda parte, Nem Só de Caviar aparece pelo telefone, mas a história só está na metade.
Se você não leu a primeira parte, clique aqui e leia antes de continuar.
A esquina e o livro
Parte 2
Eu continuava sentado na beirada do sofá na casa da Cláudia com o livro ainda fechado, pensando todas essas coisas e lembrando que, no dia anterior mesmo, tinha visitado um sebo e procurado por ele. Durante pelo menos cinco anos fiz isso insistentemente. Não era uma busca insana, mas sempre que tinha uma oportunidade eu procurava o Nem só de Caviar. Algumas vezes encontrei a edição nova, que nem revisada foi depois de 1965 quando foi lançado pela primeira vez em português, ou então encontrava outros livros de Johannes Mario Simmel que eu não tinha a menor vontade de ler. Um exemplar de Nem Só De Caviar Vive o Homem velhinho só para curar minha expectativa, nunca.
No fundo eu até gostava dessa busca infrutífera, gostava de ter um motivo para entrar nos sebos e ficar catando o livro (comprei muitos outros assim), gostava de perguntar para as pessoas se haviam lido e se tinham para me emprestar. Enfim, era uma caçada saudável. Mesmo porque a qualquer momento eu poderia comprar uma edição nova e resolver de vez meu problema. Ainda bem que não fiz isso.
Pela Cláudia eu nunca procurei, nosso reencontro foi absolutamente casual, virando uma esquina demos de cara um com o outro e não nos separamos mais. Passamos dias e noites contando o que tínhamos feito nesses últimos dez anos, de como tínhamos mudado pouco fisicamente, e como nossas histórias pareciam terem sido escritas para que estivéssemos juntos ali, daquela maneira, naquele momento.
E foi numa dessas conversas pelo telefone que, falando dos livros que tínhamos ou não lido, ela inocentemente escreveu essa história.
- Tenho outro livro aqui, acho que vc também vai gostar - estávamos falando de um livro que eu tinha acabado de ler na casa dela e gostado muito. - Tem o mesmo jeitão desse que você leu agora.
- Qual é esse outro livro? - perguntei sem nunca imaginar a resposta que ela me daria meio segundo depois.
- “Nem Só De Caviar Vive o Homem”, conhece? - Ela não ouviu meu queixo caindo.
- Você está me dizendo que tem esse livro aí? - Definitivamente não estava preparado para encerrar minha busca dessa maneira, pelo telefone.
- Tenho, estou olhando para ele.
- Qual é esse outro livro? - perguntei sem nunca imaginar a resposta que ela me daria meio segundo depois.
- “Nem Só De Caviar Vive o Homem”, conhece? - Ela não ouviu meu queixo caindo.
- Você está me dizendo que tem esse livro aí? - Definitivamente não estava preparado para encerrar minha busca dessa maneira, pelo telefone.
- Tenho, estou olhando para ele.
Cláudia só percebeu o impacto das suas palavras depois que soltei vários palavrões de felicidade e contei a ela - que, claro, não estava entendendo minha reação - a história da caçada que acabava de terminar. Confesso que só no dia seguinte com o livro nas mãos, consegui garantir que ela tinha mesmo acabado. Cheguei a pensar que tudo tivesse sido só um delírio meu.
Talvez a leitora considere isso tudo um exagero, tratar a procura por um livro que não tem nada demais como uma caçada e valorizar seu achado como se fosse a conquista de uma medalha olímpica, ou uma descoberta arqueológica. Mas ao final dessa história espero que, se essa impressão existe, ela seja completamente eliminada, pois o que aconteceu depois que abri o livro justifica plenamente as expectativas que criei.
Continua...
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1 Comments:
É uma delícia saber de versões reais desses encontros alinhavados pelo destino, que, às vezes, parecem só acontecer nos filmes... Paco, prazer enorme te conhecer lá no Circuito.
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