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13.7.09

Ñ, uma letra que faltava ao Rio

Antes de falar de comida, um pouco de ortografia latina: o som que em português é produzido pelo dígrafo "nh", em espanhol usa uma letra só. Mas, diferente do "ç", que seria o nosso equivalente, o ñ deles (pronuncia-se enhe) é realmente uma letra que consta do alfabeto logo depois do n, não é apenas uma acentuação. Mas agora os cariocas aqui têm também o seu Eñe, no caso um restaurante (coisa muito mais útil do que uma letra, convenhamos).
Um pouco atrasado em relação à São Paulo onde o Eñe já fez dois anos, o Rio ganhou na semana passada um restaurante da nova cozinha espanhola. Antes que vocês reclamem do termo "nova cozinha espanhola" que nem eu aguento mais, esclareço: trata-se da nova nova cozinha espanhola que passa longe de sifões, espumas, canudos e sacolés. É comida mesmo, com prato e garfo, e espanhola mesmo.

Fica num lugar que eu nem sabia que existia, dentro do Hotel Intercontinental mas com acesso pela praia de São Conrado, o que imediatamente tira do Eñe carioca a pecha de restaurante de hotel e dá uma cara de balneário que pouquíssimos restaurantes da cidade têm. A entrada é por um deck de madeira no meio dos jardins do hotel onde já há mesas sob um toldo para comer vendo e ouvindo o mar. Mas se você é do tipo que prefere um ambiente mais, por assim dizer, civilizado, com ar condicionado, ou se quer sentar vendo o que acontece dentro da cozinha, a casa tem um dos mais elegantes e despretensiosos salões que conheço na cidade. Piso de madeira rústico, instalações aparentes, iluminação suave e uma grande vidraça que dá para a cozinha onde a turma trabalha sob o comando sereno do chef Sergio Torres que chama um parêntese (quem acompanha o Bistrô há algum tempo talvez ainda se lembre que ele foi entrevistado aqui ao lado do seu irmão gêmeo e sócio quando abriram o Eñe em SP num dos poucos posts em que a gente aqui não chegou atrasado).

A competência dos irmãos Torres, que descobri serem catalães de Barcelona e do bairro de Gracia, onde nasceu meu pai e onde morei, já era conhecida, mas a simpatia do Sergio, não. Atendeu a todos que o procuravam na cozinha e sempre com uma taça de cava na mão mostrava o que estava fazendo e até dava provinhas dos pratos que iria servir.

Logo ao chegar, também com uma cava na mão, provamos uma linguiçinha temperada com páprica, batatas bravas ao estilio da casa (na foto, sensacionais), croquetes de presunto cru e um mini tomate confit recheado de ostra que foi só o primeiro sabor inédito da noite. Se tivéssemos ficado naquele deck só com isso e a lua cheia, já estava bom. Mas entramos e sentamos.

Éramos umas sessenta pessoas que quase enchiam o salão. Trocamos a cava por um branco espanhol para acompanhar primeiro um ravoli de castanha portuguesa com foie-gras que se não impressionou foi porque era realmente um sabor inesperado. Mas eu comeria mais uns três ou quatro. Depois o aroma da cozinha trouxe uma vieira na chapa coberta com uma emulsão de salsinha num sabor muito espanhol. Subindo um pouquinho o tom, provamos um filé de peixe que no menu diz que é corvina mas eu duvido, numa cama de sal com um purê de barôa e um refogadinho de tomates, azeitonas e outros temperos bem picadinhos delicioso. Desse eu comeria mais uns cinco se me servissem. Mas serviram, agora já com um tempranillo no copo, uma vitela lentamente braseada acompanhada de um sensacional mil-folhas de batata que para alguns foi o melhor prato da noite. Encerramos com uma mousse de crema catalana que tem tudo o que a original tem só que com uma leveza que permite perceber muito mais as sutilezas do seu sabor.

Apesar de um monte de novidades, todos os pratos eram na sua essência, posso dizer sem exagerar, tipicamente espanhóis. Sem abuso da técnica, ingredientes facilmente identificáveis, misturas de sabores que sempre existiram, estava tudo lá. Já comi muita coisa em matéria de comida espanhola, desde a caseira do interior até a sofisticada de Barcelona e garanto que o Eñe é um restaurante espanhol até a raiz dos cabelos. Exatamente como a letra ñ. Bem vindos ao Rio.


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Eñe
Av. Prefeito Mendes de Moraes, 222 São Conrado (em frente ao posto 13)
www.enerestaurante.com.br


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4 Comments:

Blogger Constance Escobar said...

(Acho que sem querer mandei o comentário na conta do namorado e ainda cortado! Então vai de novo!) Acho fantástico como podem duas pessoas, num mesmo jantar, saírem com impressões diferentes. Viva a subjetividade! Vive la différence! O Eñe não conseguiu me impressionar, nem no meu jantar lá em Sampa, nem na inauguração aqui no Rio. Boa comida, sem dúvida. Mas não me pegou de jeito. Há quem chame o Eñe de fraude. Há os que se apaixonam pelo trabalho dos gêmeos. Eu fico no meio do caminho... Mas, no meu jantar em São Paulo, que foi bem mais longo que esse da inauguração, tava tudo lá: espumas, sifões, nitrogênio líquido e outros bichos. Tudo lá, Paco.

13/7/09 22:46  
Anonymous Cris Beltrão said...

e por aqui onde estou que o N tem acento agudo? fazer o quê com isso, meu Deus!!

16/7/09 16:28  
Blogger Paco Torras said...

E onde é isso, Cris?

16/7/09 16:31  
Blogger Vinicius F. Fracassio said...

Espumas, sifões, nitrogênio líquido e mil novas tecnologias de forno e fogão! Talvez cometa o pecado de comparar a cozinha com a internet, mas as pessoas não estão notando o real valor da revolução. Não é evolução é desenvolvimento mesmo. Ato mostrar algo que já existe de outra forma ou então colocar na prática idéia! Bem, o que me conforta é que no caso da gastronomia ou simplesmente cozinha o que vale mesmo é a memória do paladar e desse não temos muito como fugir da evolução a afinal é fisiológico. Bem entre propostas e propostas o que vai pegar nas diferentes cozinhas e nos pratos das pessoas é a essência do sabor e para isso cozinhar bem e com histórico de causa e necessário! Bem, adoro o blog sempre fiquei caladinho por aqui, mas hoje calhou deu ter conhecido o Eñe e encontrar um post aqui! Resolvi escrever! Hihi!

21/7/09 14:55  

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