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25.3.13

A fome e a memória


Histórias de bons restaurantes que duraram pouco todo mundo conhece. Na maioria das vezes o problema é a gestão amadora, briga de sócios ou os dois. Dá dó você sair de casa para comer naquele italiano tão bom que abriu há poucos meses, procurar vaga, estacionar o carro, ver o letreiro de longe e dar de cara na porta. O flanelinha ainda informa que fechou semana passada e que vai abrir uma farmácia no lugar. Que pena.
O contrário é bem mais raro, um restaurante ruim ou apenas sem graça ou sem nenhum atrativo especial durar décadas numa cidade cada vez mais competitiva como a nossa, convenhamos, é bem mais difícil de encontrar. Mas nesse caso, quem não procura, quem foge, acaba sendo encontrado. Foi o meu caso.

A falta de empatia e a vaga lembrança de uma má experiência na Osteria Policarpo há mais de dez anos sempre me afastaram de lá. Isso durou até anteontem quando passando pelo Largo dos Leões, às 17:00hs sem ter almoçado, a fome embotou minha memória, dominou alguns músculos da face e fez minha boca faminta declarar:

- Vamos comer uma massa no Policarpo!

Eu mesmo achei que era outra pessoa falando e ia retrucar, mas quando vi já era tarde, a fome já tinha nos colocado sentados no restaurante. Éramos os únicos clientes.

O ambiente do Policarpo é simples, limpo e impessoal. Fora as gravuras fazendo referências à Itália e suas massas, poderia ser um restaurante de qualquer especialidade.O cardápio, ao contrário, deixa bem clara a proposta da casa. Os pratos são todos típicos italianos descritos naquele idioma próprio dos restaurantes desse tipo por aqui.
O que de cara chama a atenção no menu é a relativamente pequena quantidade de opções, o que de jeito nenhum me incomoda, acho até bom e inclusive já tratamos desse assunto num post em 2006. Outra coisa que chamou minha atenção foram os preços de gente grande num restaurante tão simples.
O prato que escolhi, Fettuccini ao Ragu com pimenta, custa R$ 44,00. A Monica pediu um Espaguete com Alcachofras que custa R$ 46,00. A fome era tanta que nem pensei em perguntar se os pratos davam para dividir. Depois pensei que na verdade deve ter sido um lampejo de memória evitando uma gargalhada interior da simpática garçonete. De entrada pedimos um Antepasto e uma torradinhas. Nada de vinho, só água mineral. 
O tal do Antepasto era aquilo mesmo: abobrinha, alho, tomate, cebola, pimentão etc. assados sem nada mais, nenhum tempero destacado, nada. Fraquinho fora as torradinhas que eram medíocres. Minha memória começava a voltar.
Já os pratos principais não seguiram a mesma linha, eram ainda mais sem graça. 
Para começar são porções mínimas, muito diferente do que se vê nas osterias italianas nas quais os Policarpo diz se espelhar. Meu fettuccini ao ragu era de uma pobreza ímpar. O macarrão mal cozido (muito diferente de al dente) misturado num molho de tomate ralo com pedaços de carne sem nenhum sabor. Tudo jogado num prato sem charme ou cuidado maior na apresentação. Vou te falar que é difícil fazer um macarrão com molho de tomate e carne ficar sem graça, mas eles conseguiram. 
O prato da Monica seguia a mesma proposta de quantidade, sabores e apresentação.
A essa altura minha memória já havia sido restaurada límpida e clara e me vi sentado naquele salão mais de uma década atrás. A única diferença entre os dois momentos é que antes pensei que aquilo, daquele jeito, não poderia durar muito. Sábado pensei como aquilo, daquele jeito sobrevive há tantos anos.
Naquele cenário de preços, quantidades, mediocridade e sem graciçe, nem sobremesa pedimos. A conta de R$ 140,00 foi das mais caras que paguei na vida. Sério, doeu. Me senti enganado por um prato de macarrão com tomate. Posso listar dez italianos mais baratos e muito, muito melhores do que a Osteria Policarpo de onde, mesmo pagando mais, nunca comendo menos, não saio com essa sensação.
Mas deve haver pouca gente que compartilhe desse sentimento, pois o Policarpo está vivo há mais tempo do que a maioria dos restaurantes da cidade, oferecendo a mesma coisa, feita da mesma maneira no mesmo lugar, que só posso imaginar que o errado sou eu, que o ragu que faço em casa não vale nada e que eu só posso é torcer para que da próxima vez que a fome assumir o controle eu esteja passando longe do Humaitá. Vai que....

Osteria Policarpo
Largo dos Leões, 3
Humaitá, Rio de Janeiro - RJ, 22260-210
(21) 2286-7698


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1 Comments:

Anonymous Constance Escobar said...

Triste mesmo é pensar que no Rio de dez anos depois, a conta de R$70,00 per capita é considerada uma conta relativamente barata mesmo para um restaurante simples. Frequentemente, pagamos mais caro que isso pra comer tão mal quanto no Policarpo, ou até pior...

28/3/13 00:45  

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